Enquanto esperávamos ônibus em uma parada super esquisita do Manaíra – onde só havia eu e Mônica –, aparece na esquina um homem muito suspeito. Assim que o vi, disse para Mônica que o ambiente estava ficando tenso... dito e feito.
O cara pára na minha frente e estende a mão. Dou uma de desentendido balançando a cabeça e indago: E aí?
Ele começa a falar: Tá vendo minha mão? (deu vontade de dizer: claro que estou, não sou cego) Tá cheia de calo... Aí ele me obriga a ver o pé dele: Tá vendo minhas unhas também? (¬¬) Tou todo machucado e cheio de calo. Eu trabalhava carregando verdura e agora tou desempregado.
(silêncio tenso por um momento)
Ele: Me dá dinheiro! (fazendo gesto para eu e Mônica mostramos a carteira).
Fizemos o que ele mandou. Mônica só tinha cinco centavos. Eu abri a minha carteira, tinha duas notas de 20 e uma de 50 (para quem não sabe somar, 90 reais). Juntei as notas no dedo e mostrei apenas a de 20. Como não queria dar nada para o infeliz, tentei postergar (palavra que aprendi em De Volta para o Futuro 3) com cara de pena: Pô, cara! Só tenho 20 reais e é para pagar uma conta. Sério mesmo! Eu até daria, mas preciso muito pagar essa conta (até ali fingíamos que ele era um simples pedinte).
Ele pára por um momento, fica me olhando e diz: Então vamos trocar o dinheiro!
Assim, eu disse a única coisa que me parecia sensata no momento: Tá certo! Bora. Mas por aqui não tem lugar para trocar (estava tudo fechado).
Foi então que ele apontou para um lugar mais esquisito. Resistindo, eu sugeri: Não! Vamos mais para cima, que tem uma farmácia e uma parada que também passa meu ônibus.
Beleza! Acordo feito.
Fomos à farmácia. No caminho, desenvolvemos um bom papo. O cara me explicou que mora em um bairro pesado: Mandacaru. Aí engatei: Você deve conhecer uns familiares meus. Eles moram por lá também (na verdade, não é em mandaca, mas perto).
Revelei os nomes de um primo barra pesada e de um tio mais nó cego ainda. Ele disse que os conhecia, embora eu ache que ele estivesse mentindo. Ele confessou que morava perto da linha do trem. Aproveitei o ensejo para revelar mais um amigo que mora perto de lá, conhecido pelo apelido de uma droga “light”. Mais uma vezes, ele diz que o conhecia, provavelmente mais uma mentira.
Depois, começou a contar que uns amigos dele vacilaram, pois iam matar dois homens, mas só conseguiram executar um, o outro fugiu ferido. Dei mais uma vez de entendido: Que vacilo, doido! Deixar um vivo é foda porque depois que melhorar vai querer se vingar.
Para minha sorte, ele concordou e estava gostando da conversa. Finalmente, chegamos à farmácia. Ele, obviamente, nos acompanhou até lá dentro, mas garanti que o local não troca dinheiro, que eu teria que comprar algo. Foi daí que fui pegar uma Coca. Neste momento, peguei meus 90, coloquei 70 no bolso e fiquei apenas com 20 – mostrando indiretamente a ele que aquilo era tudo que eu tinha.
Quando peguei a Coca, Mônica, de coração muito bondoso – mentira! Ela pensava que beberíamos –, viu que a latinha estava suja em cima e trocou, afinal, o carinha não podia, depois de levar nosso dinheiro, tomar um refrigerante sujo, podia prejudicá-lo de alguma forma.
Saímos da farmácia (que não tinha segurança, apenas dois balconistas que também estavam sendo intimidados pelo nosso colega) e dei os 10 reais para o amigo de Mandacaru. Ele ficou olhando para a Coca... e adivinha? Pois é! Tive que dá-la também.
Pensei: pelo menos acabou, ele vai para um lado, nós para outro. Ledo engano! Ele estava indo para a mesma parada que nós (quando começou a falar em sua experiência nos morros de Recife e em mais mortes). Depois de apertar minha mão, disse que eu poderia ir à mandaca bater um lero com ele. Eu até iria, pena que me esqueci de perguntar seu nome e de revelar o meu twitter.
No fim, ele atravessou a rua (que daria na parada também) e eu continuei do outro lado com Mônica. Porém, felizmente, ele gritou: Até mais brother! (esqueci de contar: enquanto andávamos, ele parava os carros, mesmo o sinal estando verde. Foi engraçado ver o povo parando sem ao menos buzinar. O que o medo não faz, em?).
Depois que ele foi para longe, Mônica começou a reclamar revoltada: Ele levou a Coca. Levou de brinde! Filho da puta, além de levar os 10 reais, pegou a Coca [parecia que ela estava mais preocupada com a bebida].
É foda ficarmos sem ter o que fazer nessas situações, pensando: que sorte nós tivemos por ele não roubar tudo o que tínhamos ou mesmo fazer algo pior. Na verdade, acho que todo mundo acha isso no início, até passar toda a situação e refletir melhor, ver que não devia agradecer por ficar nas mãos de um cabra desses. Devemos reclamar por ficarmos à mercê do que eles quisessem fazer e não agradecer por ele ter levado pouco e não ter feito "nada demais".
Ahhh! Isso tudo aconteceu depois de eu e Mônica assistirmos a Avatar (sobre o qual só discuto pessoalmente) e comermos no McDonald's. Pelo jeito, o McLanche só nos deixou felizes na hora, sobretudo por ficarmos mais perto de completar a coleção dos bonecos do Chaves (de raiva, finalizo com esse comentário burguês.

2 comentários:
Esmola obrigada tem um nome companheiro: assalto.
;)
Mônica tá certa! O cara ainda levou a coca, fuleragem.
Pois é! Mas eu preferia que ele deixasse o dinheiro e levasse apenas a coca. aeaehaeuhae
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