Esta é a segunda (e última) parte da entrevista com Mousinho. O segundo momento é um pouco maior que o outro, mas vou postar logo tudo de uma vez. Devido a alguns protestos (né, Vitor?), tenho que me redimir e adjetivar um pouco mais Mousinho. Disseram que meus adjetivos não foram os melhores, mais condizentes com a realidade. Mesmo eu já tendo deixado claro que não havia adjetivos suficientes para descrevê-lo, disseram que era para eu ter usado uns mais apropriados.
Pois é! Nessa segunda parte é mais interessante, principalmente porque ele fala do cinema hollywoodiano e do "cult". A visão dele é mais do que perfeita. E só podia, né? Já que é uma espécie de herói mítico, ser superior que transcende a humanidade, entidade espiritual, a única pessoa que Chuck Norris obedece,... Acho que agora está mais verossímil.
Pois é! Nessa segunda parte é mais interessante, principalmente porque ele fala do cinema hollywoodiano e do "cult". A visão dele é mais do que perfeita. E só podia, né? Já que é uma espécie de herói mítico, ser superior que transcende a humanidade, entidade espiritual, a única pessoa que Chuck Norris obedece,... Acho que agora está mais verossímil.
Allysson - Depois de uma pesquisa, percebi que você não tem graduação e nem especialização em cinema ou televisão, o que o fez se enveredar por essas áreas?
Mousinho - Gosto muito de cinema desde os dez anos, aos dezesseis fui cineclubista, aos 22 pensei em fazer mestrado em cinema, freqüentei durante muito tempo o cinema de arte do Tambaú, e por uns 15 anos o cinema Bangüê, onde participei de um projeto de revitalização, participei da ABD-PB (Associação Brasileira de Documentaristas), entre outras coisas. Na época da minha graduação, eu andava com muita gente que tinha ligação com cinema. Mas minha paixão por pesquisa em Letras terminou me levando para lá. Aliás, meu interesse por pesquisa e pela vida acadêmica começou quando me formei em Comunicação e cursei a graduação em Letras, me integrando logo a um grupo de pesquisa. Antes eu era jornalista, desde os 18 anos, tinha dúvidas se gostaria de continuar, mas não pensava em carreira universitária. Em seguida, fiquei bons 11 anos totalmente ligado à pesquisa em Letras: 1 ano de iniciação científica; 3 no mestrado, 3 com uma bolsa individual de pesquisa/ensino do CNPq, 4 no doutorado, como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP. Não pretendia ensinar em Comunicação; hoje, não trocaria por outra área, pelo menos na graduação. Mas nem cogitava isso. Estou há seis anos e meio no Decomtur, antes só tinha um ano e meio de ensino, menos que isso. Então, se são cerca de sete anos e meio de experiência em ensino (o que para minha idade, 42, é pouco), diria que só voltei a ser pesquisador de três anos e meio para cá. Antes, no começo da carreira de professor, era só carregando pedra. Por um lado na administração no ensino privado, ou aprendendo a dar aulas na UEPB e, sobretudo, aqui no DECOMTUR, mudando muito de um conteúdo para outro, numa época em que havia uma quantidade enorme de professores efetivos afastados. Não me formei em nível de graduação, nem mestrado, nem doutorado imaginando que ensinaria em Comunicação e estava distante da prática profissional, os sete anos nos quais exerci, sobretudo como repórter e redator. Então, foram mais de quatro anos feito um louco lendo muito para não dar vexame em sala de aula – e tenho consciência que dei vexame em várias situações, sobretudo no começo. Então, eu que tinha me super-especializado em pesquisa acadêmica em literatura, fiquei meio perdido nesse meio-tempo, sem saber exatamente para onde ia. Aí apareceu o Congresso da Sociedade Brasileira de Cinema em Recife, em finais de 2004, e, pouco depois, o convite para eu participar do Programa de pós-graduação em Letras. Como eu já tinha uma boa formação em estudo de ficção e como eu gosto muito de cinema, fiz a ponte e estou felicíssimo nisso, mas preciso avançar muito e muito na área de audiovisual. Mas, vendo a produção na área, estando já no quarto encontro do Socine, sinto que não dou vexame não, que tenho conseguido um padrão razoável, mas com muitas necessidades e ambições ainda em termos de avanço.
Allysson - Suas especializações em letras o ajudaram a fazer uma relação do cinema e televisão com as obras literárias? Há quanto tempo você trabalha com essa relação?
Mousinho - Sim, tive uma boa formação teórica em Letras, sobretudo, na UFPB e também na UNICAMP. A narratologia e mesmo as teorias da literatura me ajudam demais a aprofundar o estudo da ficção audiovisual. Várias categorias teóricas são comuns aos dois campos e em Letras, na área de literatura, a gente faz um percurso muito aprofundado, seja em análise do discurso ficcional, seja em análise e interpretação do texto poético. Com cinema e TV, trabalho há cerca de 4 anos.
Allysson - Já vi algumas apresentações e trabalhos que você orientou e apresentou. Eles sempre estão ligados a obras mais comerciais e populares (como Cena aberta, A grande família e Lisbela e o prisioneiro). Você acha que há uma glorificação de muitos professores por obras consideradas "cult"?
Mousinho - Primeiro é preciso eu confessar que passei aquele tempo todo em pesquisa em Letras muito apegado ao cânone, às altas literaturas do Brasil e do mundo, negligenciando os contemporâneos. Então, na verdade, essa busca de objetos menos consagrados é uma necessidade de me atualizar um pouco no contemporâneo, pensando também numa aproximação com o campo da comunicação. Ora, no tempo da literatura, meus enfrentamentos quase todos eram com obras extremamente sofisticadas no plano discurso, da desconstrução, dos discursos estabelecidos - sejam poéticos, sejam ficcionais. Mas acho que a gente perde perspectiva se não amplia o campo, nem só de grande arte se faz a arte, sua produção, sua recepção. Por outro lado, meu gosto pelo cinema e minha verdadeira fixação pela música popular do Brasil quebraram um pouco esse meu lado meio exclusivamente exigente. Tenho sim me fascinado por produtos que aliam sofisticação de linguagem com grande comunicabilidade, como na canção brasileira, como em várias vertentes do cinema narrativo. Chaplin e Hitchcock fizeram essa junção, comunicação em grande escala com extremado aprofundamento estético.
Allysson - Você já disse que não considera o cinema francês ou "cult" mais artístico que os filmes hollywoodianos. Por que você acha que muitos têm essa visão?
Mousinho - Acho que agora está até bem melhor, mas no meu tempo de graduação, as pessoas envolvidas com produção ou reflexão sobre cinema eram muito esnobes ou sectárias em relação a Hollywood ou ao cinema norte-americano. Um esnobismo com pouco ou nenhum embasamento, o que é pior. Nos anos 80, às vezes éramos muito condescendentes com o ruim cinema médio brasileiro, só por ser brasileiro e extremamente desrespeitoso com o grande cinema americano. E elegíamos como gênios, entre brasileiros e estrangeiros, todos os que de maneira mais evidente se afastassem do modo narrativo do cinema hollywoodiano. Ora, na literatura se via, na tradição brasileira, com João Cabral, Drummond, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, uma radicalidade de linguagem se construindo em intensa relação com a tradição, com o que veio antes. Aí você vê em autores tão fundantes como Proust, James Joyce, Virgínia Woolf, Katherine Mansfield, Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa, entre vários outros, uma radicalidade que não pretendia zerar a língua, mas fazê-la disparar, para dizer o que o ensaísta Roberto Corrêa dos Santos disse de Clarice Lispector. Ora, até Mallarmé. Olhe os versos de Chico César: Meu “cashcoeur mallarmaico/ tudo rejeita e quer”. Olhe Borges: não há uma sílaba/ que não esteja saturada/ de ternuras e temores”. Então sempre me incomodava no ambiente de cinema essa coisa mecânica de eleger a genialidade qualquer bobagem que se afastasse do cinema dominante. Qualquer coisa que nosso complexo de inferioridade e nossa ignorância não explicavam, virava genial; quando mais infeliz o final, quanto mais lento e quanto mais chato, genial. Aí não dá. Cansei de ver gente desesperada na cadeira de cinema, elogiando um filme o qual estava detestando e nem estava entendendo e nem estava tirando proveito do não entender. Dou um exemplo já dos anos 2000. A aliança francesa exibia A chinesa, de Jean-Luc Godard. Sala lotada, público especializado, gente falando “isso é que é cinema, não é cinemazinho norte-americano”, etc. O filme tem lições importantes, sobretudo na inusitada montagem. Mas, a bem da verdade, na metade, o público todo já estava desesperado querendo ir embora. Lá atrás, eu só ria. Teve uma hora que o rolo acabou e todo mundo olhou desesperado para o projecionista. O cara chegou com um rolinho e falou “calma, calma, calma, pessoal, são só mais dez minutinhos!!!” Não é para rir? Nos anos 80, cansado de só ver cinema paraibano no cineclube do qual fazia parte, tive que ouvir um crítico estabelecido me apontar o dedo e dizer que o que achava que era cinema era ET. Pegam as amplas antologias do século, reparem Spielberg e ET por lá e veremos que eu tinha razão (rsrsrsrs). João Batista é que lembra como o cinema foi se firmando num momento de crise da linguagem literária. Mas ele tem uma história própria, foi afetado pelas crise de representação, mas se estabeleceu como narrativo e representacional. Então eu acho que tanto na crítica como na produção, esse cacoete de filme necessariamente lento, necessariamente com final aberto e infeliz, necessariamente anti-narrativo, anti-realista, é uma bobagem. Como postura já vi esse filme velho antes, tanto na produção como na recepção. É a aplicação anacrônica e ao pé da letra da rica noção de desautomatização, do efeito de estranhamento dos formalistas russos e o desconhecimento da noção de dialogismo em Bakhtin. E é achar que o modernismo dos anos 20 vai ser sempre a última palavra, se é moderno é novo, se é novo é moderno, (como diz o crítico Renato Pucci) e não sai nunca disso. Essas agressões ao público e ao cinema dominante já estão automatizadas, são códigos que também perderam a força. Não sou contra arte desconfortável, senão não teria passado dez anos estudando Clarice Lispector. Só que acho uma bobagem infantil esses dogmas que ainda levemente persistem no ambiente de cinema, entre alguns realizadores e alguns espectadores muito especializados, de achar que é só ir contra o cinema mainstream que o problema da criação está resolvido, que os problemas estéticos e políticos estão equacionados. Aí eu acho que fica valendo o provocativo poema-piada de Paulo Leminski: “Podem ficar com a realidade/Esse baixo astral/Em que tudo entra pelo cano//Eu quero viver de verdade/Eu fico com o cinema americano”. No mais, não vamos esquecer nunca a lição da bossa-nova, do tropicalismo, do grupo de Minas, do mangue beat: misturar altas exigências estéticas com alta comunicabilidade. Mas isso sem que também toda criação deva vir nesse sentido, há muita coisa interessante sendo feita com decência, beleza e arrojo para públicos menores, em várias épocas; veja Paulinho da Viola, João Donato, Arrigo Barnabé, Beto Brant, Rogério Sganzerla, Tom Zé. Só não dá para aturar é esse chá das chiques, grupos extremamente auto-referenciados, que, para se apartarem e destacarem da média do público, elegem só um tipo de cinema como representando o artistamente rentável. É uma forma de elitismo. Elitismo da classe média desesperada querendo exercer algum poder. Besteira, somos todos umas empregadinhas, como disse José Celso Martinez Corrêa. A classe média não tem mesmo prestígio, disse Borges – daí é mais tranqüilo, pode se sentir mais livre.
Allysson - Você trabalha tanto com filmes quanto com séries televisivas, qual é o que o instiga mais?
Mousinho - Cinema (rsrsrs).
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